quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Sofia e Nietzsche




Na qualidade de agitadora cultural doméstica e comandando um pequeno balcão de empregos e oportunidades para garantir atividades aos fofos, recomendei ao meu filho recém-formado ator que procurasse conhecer o trabalho do jornalista e dramaturgo Sergio Roveri. Na pesquisa realizada surgiram a página no Orkut e o blog deste rapaz.

Ao deliciar-me com sua escrita, me veio o assombro: o assunto recentemente abordado por Roveri em seu blog é matéria da Folha sobre a carne de cavalo. Concordo com meu colega. Por que precisamos matar tantos animais para saciar nossa fome?

Lembrei-me do olhar de Sofia, minha pangaré em Camanduca. Olhar lindo de tão melancólico, e só iluminado pelo reflexo das tardes em que o sol faz contrastes no morro. Cavalos são animais tristes, têm medo dos homens, exceto daqueles que lhes levam o milho, especialmente na estiagem, quando sofrem com a falta de pasto.

Têm medo do medo dos urbanóides quando sobem em seus lombos, se desesperam se o urbanóide se desesperar. Se encantam com o caminho, se o urbanóide se der conta do encanto. E como é difícil ritmar o corpo do urbanóide aos solavancos do trotar!A dedicação de Sofia a Nietzsche, sua única cria, é comovente. Seguem juntos pelo pasto, pelas estradinhas, e as primeiras tentativas de galope - quando o cavalinho ganha coragem, galopa, e não sabe bem como, nem onde parar - são acompanhas pelo mesmo rastro de melancolia azul-marinho do olhar de Sofia. Quase nunca deitam e se deitarem, é o momento do adeus.

Se ao comê-los fosse possível deter tanta melancolia e ritmo, sim, confesso, eu comeria ao menos um pedaço, para virar poeta.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Fuga para o vizinho

Problemas com os vizinhos é a sina de quem tem muitos filhos. Pergunte a qualquer mãe ou pai de três filhos ou mais e certamente eles terão uma história para contar sobre vizinhos.
Na vida nada é por acaso, portanto, o transtorno do sono que acomete meu vizinho de alguma forma também nos acomete para que possamos acostumar a falar mais baixo. Acho que a casa está mais acolhedora depois que resolvemos baixar nosso tom de voz.
Por sinal, o barulho das portas dos quartos, depois da meia-noite, é muito irritante. Em especial os trincos soltam um gemido metálico, agoniante. Os banhos noturnos me trazem imagens do relógio da água girando sem parar. E o da luz. Por mais que eu tente dormir, aquele barulhinho da água caindo que se arrasta por minutos e minutos, e o som do próprio chuveiro, um rosnado elétrico exasperante, antagonizam com o sono que prometia ser tranquilo.
Ouço o tilintar dos cintos que, pendurados na parte interna das portas dos armários, chacoalham sem dó. As portas dos armários são abertas e fechadas muitas vezes, fazendo um som mais oco que o tilintar dos cintos, mas não menos pertubador. Às vezes, há uma ou outra discusssão, e saltos, muitos saltos, marcando o granito da escada e perfurando meus desejos mais sinceros de um sono reparador.
Todo essa profusão de sons se dá muito próximo da parede que faz divisa com o quarto do vizinho.
Fico pensando...o vizinho é feliz por ter uma parede de tijolos baianos separando-o desta zona!
Quem sabe ele não me aluga o quarto dele?

quinta-feira, 10 de maio de 2007

O tormento mora ao lado

Queridos amigos!

Que bom voltar ao computador. Um "bode" de pelo menos uns cinco anos me afastou do teclado e da escrita. Não, não adoeci, estava doente antes do"bode", e o sintoma eram horas plugadas à telinha. Sim, o "bode" foi providencial e me sinto curada, pronta para ficar diante da telinha só o tanto necessário para mimar com palavras minha prole de oito filhos fofos, meu marido lindo, minha família deliciosa.
Como todos aqui de casa são sensíveis, inteligentes, plugados com este e outros mundos, desejosos de poesia e receosos com a minha sanidade, prometo caprichar.

Por ora, contextualizo: mudei-me há quatro meses, saida às pressas de uma casa com forro para cair. Chorei, esperniei, larguei um pé de Pata-de-vaca que fazia sombra no meu quarto e treze anos de histórias incríveis, para morar na rua de baixo. Podia sentir o suspiro de alívio dos meus vizinhos.
Depois de um mês na nova casa, soube por meio dos berros do meu novo vizinho que ele tinha transtorno do sono. Eu tentava convencer minha filha mais velha, por telefone, a fazer não me lembro bem o quê. O problema foi que a conversa rolava na varanda, por telefone, e, devo reconhecer, eu costumo levantar a voz, paulatinamente, quando um dos fofos consegue levar para um lado totalmente adverso uma conversa que deveria ser básica, tipo " eu falo e você escuta".
A varanda é muito perto da janela deste senhor meu vizinho, ademais, ele vinha acumulando muitas mágoas conosco, os recém-chegados. Daí , sim, a conversa foi do tipo "eu escuto e você fala". Ele falou muito, gritou, reclamou, se desesperou. Eu só podia pedir desculpas, juro, quase ajoelhei.
No dia eguinte, o senhor tocou a campainha. Quem estava magoada, então, era eu. Uma mágoa que não me impedira de passar máscara anti-rugas no rosto, logo cedo; era daquelas máscaras que ficam estateladas , mas não gosmentas. Fui atender a campainha achando que a Eni, minha secretária de anos, acabara de chegar. Era o senhor do lado. Que aproveitou para chamar o casal do outro lado para juntos efetivarem as reclamções.
Consegui, aos poucos, ir tirando a máscara, esfregando os dedos no rosto. Ia caindo aquele pózinho na roupa, foi muito constrangedor. Parecia que no meio da extrema seriedade do momento, alguém ali, além de mim, tinha muita vontade de dar risada, mas ninguém se atreveu. Prometi que meu marido conversaria com todos eles naquela mesma noite, quando eu, infelizmente, não estaria. Ufa.
Passado o entrevero, e baixada normas de condutas noturnas em casa, elaboradas a partir de uma lista infindável de queixas dos vizinhos, repensei e achei que neste mundo não cabe mais uma família como a minha. Meus filhos são tão fofos, tão lindos, e como culpá-los por fechar portas, abrir guarda-roupas, tomar banho...entre meia- noite e duas da manhã? Somos nós os culpados ou o povo que cosntrói casas assim tão juntas, separadas apenas por tijolos baianos? Minha filha, quintoanista de Arquitetura, jura que a culpa é dos tijolos!
Tudo bem, as duas festas ocorridas na minha ausência, até seis horas da manhã, realmente, foram abusivas (jurei para o meu vizinho que eu não estava em casa. E não estava mesmo!). De resto, o que fazer? Temos de morar! E eu preciso usar a esteira, e a máquina de lavar funciona umas quatro vezes por dia!

Bem, alguém na casa do vizinho toca gaita, já ouvi. Fato que, de certa forma, me libera para treinar minha flauta...tocar minha kântale...será? Libera as pequenas para treinar violão?

Dias depois, olhando o céu de Camanduca, perdoei meu vizinho.